07/04/2011

NOTA DO SEPE SOBRE A TRAGÉDIA DE HOJE NA EM TASSO DA SILVEIRA EM REALENGO

A direção do Sepe já está na porta da Escola Municipal Tasso da Silveira, palco do atentado que provocou, até o momento, a morte de 13 estudantes da unidade e ferimentos em mais 22, que foram encaminhados para hospitais locais. Como o sindicato já vem denunciando fartamente ao longo dos últimos anos, a violência nas unidades escolares tanto do estado como do município tem como uma das causas o abandono por parte das autoridades estaduais e municipais das escolas públicas que compõem as redes de ensino do estado e do município. Hoje, faltam milhares de funcionários administrativos nestas redes, como inspetores de alunos, pessoal de portaria, orientadores educacionais, entre outros profissionais que tem a tarefa de auxiliar o trabalho dos professores e garantir segurança no espaço escolar.

Nos últimos anos, o Sepe já esteve algumas vezes no Ministério Público e na Câmara de Vereadores para denunciar o aumento da violência nas escolas públicas do Rio de Janeiro. O número de casos de violência dentro e no entorno das escolas tem aumentado de ano para ano: agressões a professores, brigas de alunos, balas perdidas resultantes de operações policiais ou confronto de quadrilhas de traficantes; todas estas ocorrências tem provocado ferimentos e até mortes de alunos e o sindicato tem denunciado às autoridades, mas, até o momento, nossas denúncias tem caído no vazio e as ocorrências continuam acontecendo.

Por conta deste fato, o Departamento Jurídico do Sepe está estudando entrar na Justiça contra as autoridades municipais (responsáveis pela rede municipal) e estaduais (responsáveis pela segurança pública) responsabilizando-as criminalmente pela lamentável tragédia ocorrida hoje pela manha na EM Tasso da Silveira.
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Já são 13 mortos e mais de 20 feridos após homem abrir fogo em escola (RJ)


Autoridades confirmam mortes de crianças após invasão de escola em Realengo

Rio - As autoridades confirmaram, nesta quinta-feira, que doze crianças morreram no ataque de um atirador a uma escola municipal de Realengo, na Zona Oeste da cidade. Nesta manhã, um homem efetuou diversos disparos contra professores e alunos causando desespero e pânico no local. A morte do atirador também foi confirmada. Ele teria se matado com um tiro na cabeça e deixado uma carta explicando as razões do crime. Cerca de 30 pessoas ficaram feridas. 


Milhares de pessoas se aglomeram em frente à escola na tentativa de conseguir idetentam identificar as vítimas do atentado à escola em Realengo | Foto: Reprodução da TV

Uma multidão de pessoas se aglomeram em frente à Escola Municipal Tasso Silveira, localizada na Rua General Bernardino de Matos, em busca de informações. Um cordão de isolamento precisou ser montado pela PM para facilitar o trabalho de socorro às vítimas. O prefeito Eduardo Paes e representantes da Secretaria Municipal de Educação foram para a escola para apurar o ocorrido e tomar providências necessárias.


A fachada da escola Tasso da Silveira, invadida por um jovem armado com dois revólveres na manhã desta quinta-feira | Foto: Reprodução da Internet
Responsáveis pelos alunos afirmaram que o criminoso teria invadido uma sala do nono ano e disparado mais de cem vezes contra crianças com idades entre 12 e 14 anos. "As crianças disseram que foi um grande banho de sangue. Uma cena horrível", disse um pai de aluno.
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O criminoso foi identificado como Wellington Menezes de Oliveira, de 24 anos. De acordo com o 14º BPM (Bangu), o assassino seria aluno da escola, já que teria sido identificado por uma carteirinha. Ele teria entrado no colégio dizendo que era um palestrante e aberto fogo contra os estudantes. Há outra versão para o crime: o atirador seria o pai de uma aluna que sofria de bullying (violência por parte de alunos).
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Disfarçardo, ele foi a uma sala localizada no terceiro andar do prédio onde cerca de 40 alunos assistiam a uma aula de Português e efetuou os disparos com dois revólveres calibre 38. Após balear as crianças, ele teria atirado contra a própria cabeça.
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Os feridos foram levados ao Hospital Albert Schweitzer. De acordo com a equipe médica, Wellington atirou diretamente contra a cabeça das crianças, com a clara intenção de matá-las. Policiais militares e enfermeiros da unidade afirmam que o cenário é de desespero, sangue e de guerra. "Tem muita confusão de pessoas e policiais aqui no Albert Schweitzer. É um completo caos", disse um morador à Rádio Band News. Os casos mais graves estão sendo transferidos para hospitais particulares e da rede federal da região.
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Helicópteros do Corpo de Bombeiros levaram os feridos a um campo de futebol localizado nas redondezas para receber os primeiros socorros. Muitas macas estão espalhadas pelo chão para receber os baleados.


FONTE: O DIA

06/04/2011

Estado (RJ) autoriza 4.378 vagas para professor sem concurso

O governo do estado publicou no Diário Oficial da última terça-feira, 29, um decreto autorizando a Secretaria de Estado de Educação (Seeduc) a contratar até 4.378 professores temporários para atuar nos níveis fundamental e médio. Segundo a Assessoria de Imprensa da secretaria, será divulgada nos próximos dias a resolução que definirá os procedimentos a serem adotados pela sede da Seeduc e pelas Diretorias Regionais.

De acordo com o setor, a previsão é que as inscrições iniciem em abril. Os candidatos terão que preencher uma ficha com dados pessoais, titulações e experiências. Encerradas as inscrições, a secretaria dará início às convocações, de acordo com as necessidades identificadas na rede.

Tão logo as convocações sejam realizadas - seguindo o cronograma estabelecido na resolução ?, o prazo para alocação dos docentes em sala de aula deverá ser de, aproximadamente, uma semana.

Para concorrer a uma vaga de professor I (do 6º ao 9º ano e ensino médio) será preciso comprovar licenciatura plena na disciplina escolhida. Os vencimentos iniciais serão de R$765,66, para carga horária de trabalho de 16 horas semanais.

A presidente da União dos Professores Públicos no Estado (Uppe-Sindicato), Teresinha Machado da Silva, criticou o anúncio da nova seleção, ressaltando que qualquer tipo de vaga que surja na educação, por lei, devem ser preenchidas através de concurso público. "O acesso ao serviço público deve ser sempre via concurso. Até quando o governo vai adotar medidas paliativas para resolver problemas crônicos da educação, que resultam nos baixos índices nas avaliações?", questiona.

A dirigente sindical ressaltou que a carência de professores na rede é notória e, segundo ela, está diretamente relacionada aos baixos salários, que impossibilitam a permanências na carreira.

 Para a diretora do Sindicato Estadual dos Profissionais de Educação do Rio de Janeiro (Sepe), Edna Felix, o decreto admite a carência de professores, diferentemente do que tem sido declarado pelo titular da pasta, Wilson Risolia. "O Sepe vem alertando para a necessidade de mais de 12 mil docentes na rede", afirma.

Segundo ela, os professores devem sempre ser selecionados por concurso público que, através das provas aplicadas, possibilita a contratação dos melhores profissionais.

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"A seleção temporária não resolve definitivamente o problema da falta de professores. Além disso, ela afeta a qualidade da educação, uma vez que gera uma relação distante entre o profissional e a escola. O professor concursado, tendo a garantia de uma relação estável de trabalho, estabelece um vínculo mais sólido com o seu aluno e consequentemente tem mais tranquilidade para planejar suas aulas", diz.

Fonte: Folha Dirigida 
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CPI dos contratos da Educação tem audiência

A primeira audiência da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) que investiga as denúncias de contratação irregular de trabalhadores para a Secretaria Municipal de Educação do Rio de Janeiro ocorreu na última segunda-feira, 28. O sócio majoritário da empresa Vpar (responsável pela seleção), Carlos Alberto Souza Villar Filho, primeiro convidado para prestar depoimento, não compareceu. Em seu lugar apresentou-se o diretor executivo da empresa, Marcos Rogério Mazzieri.

Quando questionado pelo presidente da comissão, vereador Paulo Pinheiro (PPS), sobre o motivo da instalação da CPI, o diretor afirmou que se deu em virtude dos questionamentos a respeito do cargo que estava sendo oferecido. Segundo ele, não se tratava de uma seleção para inspetores de alunos, mas para funções de atividades gerais, como porteiros e copeiros.

Mazzieri afirmou desconhecer a exigência de indicação política para concorrer a uma das duas mil vagas oferecidas. "Tomei conhecimento desse fato através da imprensa. No edital de licitação consta os cargos possíveis de contratação. Não existe essa possibilidade, já que a empresa não trabalha com cargos da área acadêmica. O objeto do contrato é a área de apoio administrativo", afirma.

O diretor executivo também não esclareceu os motivos que levaram o sócio majoritário a repassar a sua parte na sociedade, ficando fora da empresa durante o processo de licitação. Segundo o relator da CPI, vereador Paulo Messina (PV), dois dias antes (26 de janeiro de 2010) do Secretário Municipal de Administração, Paulo Jobim, ter autorizado o pregão eletrônico para contratação da empresa, Carlos Alberto Filho deu entrada na Junta Comercial do Rio (Jucerja) saindo da empresa.

No mesmo dia da autorização, ocorrida em 28 do mesmo mês, os sócios assinaram um contrato de gaveta, estabelecendo o retorno de Carlos Alberto Filho à condição de majoritário. No entanto, a mudança não foi protocolada na Junta Comercial, fato que ocorreu somente após a vitória da Vpar e, posteriormente, a autorização do pagamento do contrato pela Secretaria de Administração, dez meses depois.

Segundo Messina, embora algumas dúvidas não tenham sido esclarecidas durante o depoimento, ficou decidido na reunião entre os membros da comissão que o sócio majoritário da empresa Vpar não será novamente convidado para depor. Além disso, um novo encontro dos parlamentares, marcado para esta quarta-feira, 30, definirá os próximos passos da CPI.

04/04/2011

Caminhos para transformação da escola: Da prática à teoria

Brasil De Fato - [Cecilia Luedemann] Caminhos para transformação da Escola – reflexões desde práticas da Licenciatura em Educação do Campo é um livro para educadores comprometidos com a transformação da escola brasileira.

Caminhos para transformação da Escola – reflexões desde práticas da Licenciatura em Educação do Campo, organizado por Roseli Salete Caldart e com artigos de Andréa Rosana Fetzner, Romir Rodrigues e Luiz Carlos de Freitas, é uma grande contribuição para educadores e educandos que buscam novas referências teóricas e práticas para a criação de uma escola para os trabalhadores.
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Esta publicação comemora os 15 anos do Instituto Técnico de Capacitação e Pesquisa da Reforma Agrária (Iterra), em 2010, com experiências e reflexões sobre a educação desenvolvidas pelo MST. Dividido em três partes, o livro trata sobre os seminários e documentos de sistematização, sobre a organização escolar e o trabalho pedagógico e as reflexões específicas sobre a Educação Básica de Nível Médio.
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Em todos os textos há uma preocupação em relatar e sistematizar as experiências pedagógicas à luz do marxismo, relacionando a história da educação brasileira, suas principais teses e as propostas de superação da realidade atual. Essa retomada da vertente marxista pode ser claramente identificada no artigo A Escola Única do Trabalho: explorando os caminhos de sua construção, de Luiz Carlos Freitas (Unicamp). Estudioso de Moisey Pistrak, pioneiro da revolução educacional russa, traduziu o surpreendente relato da experiência pedagógica da primeira fase da revolução russa, o Escola-Comuna.
É surpreendente ler as análises sobre cada um dos temas da educação, como a questão dos ciclos, da interdisciplinaridade, os conteúdos das áreas, a organização escolar, etc, contextualizados na história da educação brasileira e nas experiências de criação de uma nova escola. As experiências de licenciatura em educação do campo apresentam alternativas concretas, como a de conteúdos específicos da realidade dos trabalhadores rurais, bem como a reorganização da escola, retirando a sala de aula do centro e relacionando-a com a vida de seu entorno.
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Questões como currículo são debatidas à luz da noção de complexo de estudo com base nas análises de Moisey Pistrak, Celestin Freinet, Isabela Camini e Roseli Caldart. Uma relação dinâmica entre a teoria marxista e as experiências desenvolvidas pelos educadores e educandos do MST. Leitura obrigatória nesse sentido é o livro de Isabela Camini, Escola Itinerante – na fronteira de uma nova escola. A autora analisa a história e realidade de uma escola criada na luta contra a educação liberal burguesa pelo MST. E tanto no livro Escola Itinerante quanto no Caminhos para transformação da Escola, os autores colhem o resultado de anos e anos de experiências para a criação de uma nova teoria e uma nova prática educacional transformadoras.
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E nesses caminhos para a transformação da Escola encontramos um acerto de contas teórico. Não há como seguir em frente se não for possível discutir os conceitos educacionais no campo do marxismo, como faz Freitas com a matriz teórica da pedagogia histórico-crítica. Parafraseando Pistrak (Freitas, 2009) poderíamos dizer que o que se propõe é uma “prática social sentada” no interior das salas de aula das nossas escolas. Talvez este seja o limite das nossas escolas, mas não pode ser o limite da nossa teoria.”(p.163)
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O desafio é criar uma teoria pedagógica que ultrapasse as limitações da atual escola liberal burguesa para a criação da Escola Única do Trabalho. Como explica Freitas (p.174): “À medida que a experimentação desses processos avance, poderemos começar a lidar com situações concretas encontradas pelas escolas e que poderão mostrar melhor o que se pretende com esta abordagem. Os caminhos aqui apresentados, com certeza, serão recriados pelas próprias escolas na prática. Esta atividade prática do magistério, em espaços privilegiados como o dos movimentos sociais, deve ser a base para a construção coletiva, com o magistério, de uma nova escola e sua teoria pedagógica correspondente, como queria Krupskaya.”
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Cecilia Luedemann é jornalista e professora universitária.

Caminhos para transformação da escola
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ISBN: 9788577431649
Autor: Roseli Salete Caldart (Org.)
Número de Páginas: 241
Editora: Expressão Popular (www.expressaopopular.com.br)
Valor: R$ 15,00
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03/04/2011

A ocupação dos latifúndios da educação pelos Sem Terra

A mentalidade conservadora sempre ditou que a educação era necessária somente nas cidades. Afinal, por que um trabalhador rural precisaria ler e escrever? Porém, a articulação dos movimentos sociais no campo vem alterando, na prática, essa situação.

A partir da vivência nos acampamentos rurais ficou evidente que a luta pela reforma agrária está diretamente relacionada com o acesso à educação. Um marco fundamental para o movimento de educação no campo foi o primeiro Encontro Nacional dos Educadores da Reforma Agrária (ENERA), realizado em julho de 1997, na Universidade de Brasília (UnB).

Na ocasião, organizações como o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), Movimento dos Atingidos pelas Barragens (MAB), Comissão Pastoral da Terra (CPT), Movimento das Mulheres Camponesa (MMC), entre outras, lançaram um Manifesto das Educadoras e Educadores da Reforma Agrária ao Povo Brasileiro.

O manifesto defende uma “identidade própria” nas escolas rurais, além de “um projeto político-pedagógico que fortaleça novas turmas de desenvolvimento no campo, baseadas na justiça social, na cooperação agrícola, no respeito ao meio ambiente e na valorização da cultura camponesa”. A partir da luta unificada dos movimentos rurais, houve alguns avanços na educação, porém os números ainda são alarmantes.
As pesquisas realizadas nas últimas décadas mostram a redução progressiva da população rural. Os dados do Censo 2010, realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontam que somente 15% da população total do Brasil vivem em áreas rurais. Segundo o IBGE, em 2000, a população rural era cerca de 19%, sendo que os dados do Censo 1980 mostravam 32% da população em situação rural.

Por isso, Cristina Vargas, do setor de educação do MST, relembra que, desde a década de 80, quando surge o MST, sempre houve muita demanda para a educação nas áreas rurais. “A educação que nós queremos para o campo não é somente uma educação básica, queremos toda a educação, desde a educação infantil até a universidade, com todas as possibilidades que isso possa vir a trazer”.

Campo e cidade

Um avanço na educação rural é o acesso ao Ensino Superior por parte dos camponeses. Através de parcerias dos movimentos sociais com universidades, foram criadas turmas especiais, destinadas a trabalhadores rurais que vivem em assentamentos ou acampamentos. A parceria é financiada pelo Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária (Pronera), do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra).

O programa também abrange a Alfabetização de Jovens e Adultos (EJA), Ensino Fundamental e Médio, além dos cursos Técnicos e Superiores. Segundo Clarice dos Santos, coordenadora nacional do Pronera, o programa atendeu mais de 500 mil alunos, desde a alfabetização até o ensino superior, em seus primeiros 10 anos de existência (1998-2008). Clarice avalia que ocorreram mudanças na estrutura do trabalho rural, aumentando a complexidade e cobrando dos camponeses um maior conhecimento. Para Juvelino Strozake, advogado do MST, “uma das principais razões da miséria em nosso campo é a ausência de um ensino qualificado”.

Segundo o documento Panorama da Educação do Campo, publicado em 2007 pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), a escolaridade média da população de 15 anos ou mais que vive na área rural é de 4 anos. O levantamento mostra que a mesma média, em áreas urbanas, é de 7,3 anos.

Os dados relativos ao analfabetismo também expõem a grande disparidade entre cidade e campo: em 2004, 29,8% da população acima de 15 anos, da zona rural era analfabeta. Já na zona urbana, a taxa era de 8,7%. “O analfabetismo é muito grande, então os cursos de graduação proporcionam aos assentados ferramentas que vão ajudar na administração das cooperativas e associações. Sem o acesso ao conhecimento é impossível fazer andar um bom programa de reforma agrária”, complementa Strozake.

Demanda concreta

Fundado em 1984 com a proposta de organizar os trabalhadores rurais em torno da luta pelo direito à terra, hoje o MST pode ser considerado o movimento rural mais importante do mundo.

Para o professor Bernardo Mançano Fernandes, coordenador do curso de Geografia para assentados na Unesp, “o MST está entre os movimentos camponeses que mais lutam pela terra e pelo território. É um dos responsáveis pelo desenvolvimento da agricultura camponesa no Brasil. O MST é fundamental para o desenvolvimento de nosso país”.

Além disso, durante sua trajetória, o MST sempre utilizou a educação para alcançar a reforma agrária e a justiça social.

A coordenadora do Pronera conta que o movimento sempre teve uma preocupação muito grande com a educação das crianças nos assentamentos. “E mesmo não tendo escolas públicas, desde o início eles foram organizando suas escolas, juntando aqueles que tinham mais estudos para ensinar quem tinha menos”.

Cristina Vargas, do setor de educação, conta que foi a demanda concreta que motivou a discussão sobre o tema no movimento. “Se a luta é feita pelas famílias, as crianças também estão no acampamento. Não faz sentido que a criança tenha que morar em casa de parentes para frequentar a escola”, completa.

A partir do questionamento “Que educação queremos?”, a organização iniciou a formulação de um processo educativo que respeitasse a vivência dessas crianças em suas comunidades, já que nas escolas tradicionais a luta pela terra era renegada, o que frequentemente desmotivava os alunos.

O aprofundamento do debate sobre educação popular resultou em uma maior organicidade do setor de educação do MST. Assim, o movimento passou a trabalhar com três frentes, a educação infantil, o ensino fundamental e médio
e a educação para jovens e adultos.

Com a construção de um processo de educação popular, uma nova demanda surgiu: a formação de professores e educadores para atuar nesse processo, abrangendo também uma formação mais técnica na área da agricultura.

Na universidade

Porém, para que a demanda fosse atendida foi preciso muita luta e pressão política. O Pronera, que possibilita as parcerias dos movimentos com as universidades, foi criado em 1998 por um pressionado governo Fernando Henrique Cardoso.

Em 1997, o MST organizou a “Marcha Nacional pela Reforma Agrária, Emprego e Justiça”, com mais de cem mil pessoas, que chegou à Brasília no dia 17 de abril, em referência ao Massacre de Eldorado dos Carajás, ocorrido um ano antes. E foi nesse contexto que os movimentos exigiram do governo um programa destinado à educação rural.

A primeira parceria aconteceu em 1998, com um curso de Pedagogia da Terra, na Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul. Atualmente, funcionam cursos de história, geografia, agronomia, administração, medicina veterinária, direito, entre outros, em diversas regiões do país.

Para viabilizar uma parceria, o movimento social e a universidade enviam um projeto pedagógico à coordenação do Pronera. Se aprovado, o Incra concede bolsas para o coordenador do curso, além de sua equipe. “Eles recebem bolsas, já que é bastante trabalhoso fazer um curso adicional”, explica Clarice dos Santos.

A coordenadora do Pronera também destaca que os camponeses estudam com todas as condições asseguradas: “não é preciso arrumar um emprego na cidade para conseguir estudar. O Incra financia o curso, além de transporte, alimentação e hospedagem”.

Na opinião de Cristina Vargas, do MST, essa procura pela universidade “se dá por uma necessidade concreta de atender a educação formal e não formal que existe nos assentamentos. Além disso, faz parte do debate sobre educação no campo, idealizado por um conjunto de organizações”.

Teoria e prática

Outra característica inovadora dos cursos de camponeses é o uso do regime de tempos alternados, retirado da pedagogia da alternância, onde os estudantes dividem seu tempo entre período universidade e período comunidade. Geralmente, por semestre, o estudante passa dois meses na universidade e, em seguida, dois meses na comunidade, podendo variar o período de acordo com as especificidades dos cursos.

“O maior benefício é a aliança entre teoria e prática. Isso permite ver as contradições na prática, diferente de somente  trabalhar após passar quatro anos estudando, ou então trabalhar em uma área diferente daquela que é estudada”, sintetiza Cristina Vargas.

No dia 4 de novembro de 2010, o então presidente, Luiz Inácio Lula da Silva, assinou o decreto nº 7.352/2010, que “dispõe sobre a política de educação do campo e o Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária – Pronera”.

O documento transforma o programa em uma política pública permanente, vinculada formalmente ao Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA). Na avaliação de Clarice dos Santos, coordenadora nacional do Pronera, a gestão de Lula foi benéfica para o programa, pois em 2003, o orçamento do Pronera, que vinha ainda do governo FHC era 9 milhões. Já no fim de 2010, o orçamento é de 70 milhões. “Além disso, houve uma dinâmica muito maior, uma participação maior das universidades.”

Ataques conservadores

Ameaçados com a presença dos sem terra nas universidades, as forças conservadoras não demoraram a reagir, usando seus instrumentos habituais: a grande mídia e o poder judiciário.

Para Clarice, o que move esses ataques é preconceito. “A universidade sempre foi um lugar de formação da elite brasileira. Com a expansão das universidades privadas, as universidades públicas são, cada vez mais, território das elites. Então, hoje, o pobre estuda em escola pública e na universidade é obrigado a pagar pelo ensino. Já a elite, estuda em escola particular boa para poder entrar na universidade pública”.

O advogado do MST, Juvelino Strozake, relembra que quando foi anunciada a parceria com a Universidade Federal de Goiás (UFG) para a turma de direito, “sofremos um ataque muito forte por parte da grande mídia”. O editorial do jornal O Estado de S. Paulo, intitulado “Bacharéis sem-terra” do dia 7 de setembro de 2007 evidencia a preocupação sobre a possível ascensão de um trabalhador sem terra a um cargo de destaque no judiciário: “Um advogado que tenha por origem o MST haverá de aprofundar-se na ciência do Direito e buscar no texto legal aquilo que sirva à defesa dos interesses dos sem-terra. Muito bem. E se ele prestar concurso para o Ministério Público e virar procurador ou promotor de Justiça? E se ele prestar concurso para a magistratura e tornar-se juiz? Imaginam os ‘emessetistas’ (SIC) que, da mesma forma, ele pautará suas interpretações da lei e suas decisões de acordo com sua própria origem?”.

Os convênios também sofreram ataques na esfera jurídica. Um dos casos ocorreu na turma de medicina veterinária, na Universidade Federal de Pelotas (UFPEL). Em 2008, antes do início das aulas, o Ministério Público Federal de Pelotas entrou com uma liminar para barrar a matrícula dos estudantes. A sentença, expedida em novembro de 2010, pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ), deu parecer favorável à realização do curso, que inicia as aulas em 2011.

O ataque mais recente ocorreu com o convênio firmado com a UFG para a implementação da turma de Direito. A ação civil pública que foi proposta pelo Ministério Público Federal de Goiás já foi julgada em primeira instância e o juiz entendeu que o convênio é inconstitucional e ordenou a paralisação da turma.

O INCRA e a UFG apelaram contra a decisão e o Tribunal Regional Federal deu efeito suspensivo na apelação, ou seja, a sentença não tem mais validade nesse momento e o caso ainda será julgado pelo TRF.

Domínio da elite

Porém, a situação mais preocupante ocorreu em 2008, quando o Tribunal de Contas da União (TCU) estabeleceu o Acórdão 2653/2008, proibindo que o Pronera firme convênios com as universidades. A motivação foi uma denúncia de corrupção no convênio com a Universidade do Estado de Mato Grosso, no curso de Agronomia.

No documento, o TCU determina que os convênios não sejam mais realizados através de parcerias, mas por licitações. Após uma grande pressão, no dia 1º de dezembro de 2010, o TCU mudou sua decisão e voltou a autorizar as parcerias. Segundo a coordenadora do Pronera, a paralisação foi bastante prejudicial, deixando cerca 50 projetos, já aprovados, em espera.

Nesse período, cerca de 50 mil estudantes aprovados nos projetos, desde educação infantil à graduação, ficaram sem aulas.“Existem algumas áreas que são de domínio absoluto das elites, como por exemplo, as ciências agrárias, as ciências jurídicas e as ciências médicas”, esclarece Clarice.

Apesar dos ataques, o advogado Juvelino Strozake avalia que as parcerias proporcionam benefícios tanto para os camponeses, como para as universidades: “Com a chegada das turmas camponesas, novos temas de debates são postos para os universitários, principalmente a discussão sobre o acesso à educação”. 

Sobre a turma de Direito na UFG, Strozake afirma que é a primeira experiência de camponeses acessando o curso jurídico. Para ele, a identificação dos estudantes com os movimentos rurais é benéfica e facilita que “eles coloquem a serviço das organizações dos camponeses o conhecimento adquirido nos bancos escolares. As associações e cooperativas sofrem muitos problemas jurídicos e os advogados são muito úteis”.

Bernardo Mançano, coordenador do curso de Geografia na Unesp, também exalta a troca de experiências entre os camponeses e as universidades: “A experiência foi desafiadora. Desde que começamos esta experiência nós mudamos e o MST mudou. Eles conheceram melhor a universidade e nós conhecemos melhor o MST”.
Por Otávio Nagoya
Da Caros Amigos*
(edição de fevereiro de 2011)
Fonte:http://www.mst.org.br/A-ocupacao-dos-latifundios-da-educacao-pelos-Sem-Terra-caros-amigos
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