29/01/2012

Werneck Sodré e a teoria do Brasil

É de fundamental importância um olhar detido sobre o legado teórico e as posturas políticas do historiador centenário
 Miguel Yoshida

Em 2011, Nelson Werneck Sodré teria completado 100 anos de vida. Por ter sido importante figura na luta do povo brasileiro ao longo do século 20, é de fundamental importância um olhar detido sobre o seu legado teórico e suas posturas políticas.

Militar de carreira – ingressa no colégio militar no ano de 1924 –, Sodré sempre sustentou posições democráticas dentro do exército brasileiro, o que lhe causou uma constante perseguição pelas forças reacionárias. Além disso, também foi professor do Instituto Superior de Estudos Brasileiros (Iseb) no qual contribuiu juntamente com outros intelectuais brasileiros na reflexão sobre a formação social brasileira.

Sodré teve uma produção intelectual intensa: escreveu ao longo de sua vida mais de 50 livros e aproximadamente 3 mil artigos, nos quais buscou elaborar uma “teoria do Brasil”. Duas características são marcantes em seu pensamento: a busca de compreender a realidade brasileira em seus diversos aspectos sociais, econômicos, culturais e políticos; e o marxismo como fio condutor de sua interpretação. Segundo José Paulo Netto, autor do perfil biográfico Nelson Werneck Sodré: general da democracia e da cultura: “a unidade de sua obra teve como base o rigoroso empenho, valendo-se dos recursos do marxismo, para compreender a particularidade histórica da formação social brasileira (...) o objeto que imantou todo o seu trabalho (marxista) de pesquisa, por mais de meio século, foi a história do Brasil.”

É importante ressaltar que Sodré não foi o primeiro a construir uma teoria do Brasil; o século 20 foi marcado por várias formulações sobre a realidade brasileira, desde conservadores, como Oliveira Vianna e Gilberto Freyre, progressistas, como Sérgio Buarque de Holanda e Celso Furtado, até marxistas, como Caio Prado Jr.

Experiência militar

A evolução intelectual de Sodré se dá não apenas a partir de seu acúmulo teórico – sua bagagem cultural era algo extraordinário – mas também pela sua experiência política como militar. Ainda segundo José Paulo Netto, duas experiências marcam sua reflexão: “seu envolvimento nas eleições para o Clube Militar e a sua inserção no Iseb”.

Como decorrência da primeira, ele assume a direção do Departamento Cultural do Clube Militar, em uma gestão constitucionalista e democrática. Apesar disso, as forças reacionárias, com força e influência considerável na estrutura do exército, conseguiram desarticular tal gestão e Sodré foi transferido para Cruz Alta, no Rio Grande do Sul. Esse foi o primeiro de outros deslocamentos que ele sofreria ao longo da vida, fruto de ofensivas conservadoras.

Uma de suas principais preocupações girava em torno da história, não como uma disciplina, mas como uma totalidade, tal qual Marx e Engels postularam: “Existe apenas uma ciência, a ciência da história”. Ao perscrutar os vários aspectos da formação social brasileira, Sodré sempre buscou compreender o seu processo histórico de formação.

Não ocasionalmente, suas principais obras são: História da literatura brasileira (Graphia, 2002), História militar no Brasil (Expressão Popular, 2010), História da Burguesia Brasileira, História da imprensa no Brasil (Ed. PUCRS, 2011).

Apesar de cada um desses volumes – salvo o primeiro – terem sido publicados em anos subsequentes, entre 1964 e 1966, todos são frutos de anos de pesquisa; alguns foram concebidos primeiramente como projeto coletivo e depois realizados individualmente por ele, como é o caso de História militar no Brasil, idealizado quando foi professor da Escola do Estado-Maior, em finais dos anos de 1940.

Cabe ressaltar que essa preocupação em formular uma teoria do Brasil não é uma iniciativa individual de Nelson Werneck Sodré; o clima de efervescência social e cultural do Brasil das décadas de 1950-1960 é algo marcante em seu pensamento.

Proximidade com o PCB

São várias as polêmicas em torno da vida e da obra de Nelson Werneck Sodré, desde sua não declarada vinculação com o Partido Comunista Brasileiro (PCB) até suas interpretações marxistas da realidade brasileira. No que toca ao primeiro ponto, é possível perceber a sua aproximação ao PCB, principalmente após a Declaração de março de 1958, na qual se adota uma nova orientação estratégica para a atuação política do partido, ampliando o seu leque e alianças e o horizonte político. É nesse marco que Sodré reúne elementos político-teóricos de membros do PCB para seguir em sua formulação de uma teoria do Brasil.

No que toca ao segundo ponto, é conhecida a polêmica instaurada entre ele e Caio Prado Jr. sobre o caráter da formação social brasileira; enquanto o primeiro analisa o processo de colonização sobre o prisma da coexistência de um escravismo e de elementos de regressão feudal em algumas áreas específicas do território brasileiro, o segundo afirma o caráter capitalista mercantil do Brasil desde a sua colonização.

Dessas longas polêmicas, deve-se ressaltar a postura de Nelson Werneck Sodré que, sem nunca abandonar suas convicções político-teóricas, sempre buscou apreender as críticas que recebia e incorporá- las à sua teoria. Não cabe aqui a discussão do acerto ou não de sua teoria do Brasil, entretanto, a compreensão de seu pensamento é de fundamental importância para todos aqueles que buscam entender a realidade brasileira em seus diversos aspectos com o intuito de transformá-la.

Centenário

Por muito tempo Nelson Werneck Sodré sofreu grande isolamento por parte de vários setores da academia. Ele era injustamente considerado por muitos como um marxista mecanicista e ortodoxo. Esse isolamento começa a se romper em finais da década de 1980. Desde 2009 há um esforço de re-edição de suas principais obras e um reavivamento de seu pensamento dentro da universidade e sua divulgação para além dela.

Em 2011, ocorreram várias atividades em comemoração ao centenário de Sodré em universidades, centros culturais etc. No Rio de Janeiro, o Instituto Casa Grande, juntamente com a Escola Nacional Florestan Fernandes – nos marcos de comemoração dos 45 anos do Teatro Oi Casa Grande –, realizou duas sessões de debate sobre a vida e a obra de Nelson Werneck Sodré, sendo que uma delas contou com a presença da filha e curadora de sua obra, Olga Sodré, e a outra com intelectuais comunistas próximos, como Marly Vianna, Carlos Nelson Coutinho e José Paulo Netto.

Marly Vianna ressaltou a influência do PCB no pensamento de Sodré e a preocupação que ele nutria com relação à compreensão da história para a transformação social. Segundo Carlos Nelson Coutinho, Sodré – assim como Caio Prado Jr. e Florestan Fernandes – elabora uma imagem marxista do Brasil, ou seja, busca compreender a formação social brasileira com uma visão global, extrai raízes de nosso passado para contribuir na compreensão do futuro em seus vários aspectos que a compõem. Para José Paulo Netto, são inegáveis as transformações ocorridas no Brasil nas últimas décadas do século 20 e na primeira do século 21.

O Brasil interpretado e analisado por Nelson Werneck Sodré certamente não é o mesmo de hoje, entretanto, sem compreendermos o Brasil de meados do século 20, dificilmente conseguiremos compreender nossa realidade hoje.

Miguel Yoshida é mestrando em letras pela Universidade de São Paulo.

GRIFO MEU (PK)

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